Tudo está verde.
A luz verde atinge-lhe os olhos...
... Atingi-lhe o corpo...
... Atingi-lhe por completo...
... Entretanto não é apenas a luz que o atinge...
... É a relembrança de tudo.
Pensa em Tonks, mas ela está distante, não mais lhe pertence.
Pensa no filho.
Pensa em Harry.
Mas tudo vai convergindo e a luz:
Ela vai morrendo, na lentidão dos segundos, desaparecendo, mas antes que o mundo inteiro sumisse e ele já não estivesse mais ali.
Pensa em Sirius e a imagem canina do amigo se solidifica na escuridão esverdeada, a luz então se dissipa, mas a imagem, essa permeia, como se o esperasse desde sempre.
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Concurso Queen of Hearts 2009
Tema: Vermelho
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por: jlucas
revisão: Yami
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um
la passion est rouge
— Aluado — o lupino ergueu a cabeça, era Sirius que o chamava.
— Oi, sorriu, pousando a pena na grama verde junto ao livro em que estivera lendo até poucos segundos atrás.
O cão sorriu, delicadamente, numa malícia oculta entre os lábios vermelhos e os dentes brancos, escondida naqueles cabelos emaranhados, naqueles olhos de tom acinzentado, que só serviam para ocultar-lhe sentimentos, dando-lhe aquela incógnita sentimental que amedrontou Lupin até o ano passado...
— Que foi?
Era tão incógnito, que o lobo tinha medo, medo daqueles olhos cinzentos que escondiam aquela paixão tão bem, tão bem, que momentaneamente achava que aquilo era mais um joguete do amigo. E os sorrisos, tão indecifráveis quanto os olhares, seduziam-lhe ainda, causando aquele constrangimento latente de se encontrar admirando-o em sua mudez comum.
Nada, nada — constrangeu-se Remo.
Fora há um ano atrás, que lhe dissera, secretamente, aquela verdade. Almofadinhas sorrira e aquilo fora como um soco na sua cara, o mundo parecera regurgitá-lo e tudo girara e sumira e reaparecera, mas, apenas quando sentira o tocar suave e cálido dos lábios caninos do amigo, foi que se reencontrara.
Estavam assim, naquela paixão secreta, quase fugitiva, clandestina aos olhares alheios, iam juntos, mais juntos que antes e o tempo cavava aquilo que acreditavam, cavava silenciosamente, até aquele instante, ali, nas sombras das árvores floradas da escola.
Sirius aproximou sua boca dos ouvidos do amigo e sussurrou-lhe palavras que se perderam em seu tímpano, levando o jovem lobisomem a enrubescer; caninamente, Sirius deitou-se sobre o colo de Remo, deixando os cabelos da cor da noite serem alisados por aquelas mãos apaixonadas e temerosas, que iam alisando-os delicadamente, num gesto quase sexual, mas terno e lento.
Vivia palpitante, numa sofreguidão que não demonstrava e cada instante se fazia necessário a presença do outro, como se ele não necessitasse de si, mas do outro, necessitava de Sirius, necessitava dele a cada instante, necessitava acima de tudo, como se tivesse entregado sua vida ao alheio e aquela entrega era dolorosa, passional e dura, mas feliz, num misto de sentimentos que lhe preenchiam de uma felicidade que parecia não perpetua, mas tão efêmera, tão passageira, que queria segurá-la com as mãos a cada instante, sem poder.
Era fraco, quase fraco, entregue a ideais amorosos, olhava Almofadinhas fixamente e, num repentino instante, sua mão parou de acariciar os cabelos noturnos do amante. Não, não duraria: Quantas luas cheias; quantas minguantes e crescentes aquele cão o suportaria?
*
Estava na Ordem, olhando para Sirius, naquela evocação de lembranças reprimidas. Não, não fora o amigo canino que desistira daquela paixão; fora ele, Aluado, que a abandonara.
*
— Aluado...
Sirius fitava-lhe e sentia o choque gélido-ardente daquele olhar, as brasas tão suscetíveis que faiscavam daqueles olhos atingiam-lhe a face em cheio com aquele amor que o envolvia e o engolia. Sentiu-se acuado e rendido por aquele sentimento, sem fuga, sem escapatória, fitou o amante sem palavras, mudo, esperando alguma eloqüência, pois, mesmo tendo a paixão compartilhada, Remo se sentia preso a ela: não-liberto de si, do destino.
—...vamos fugir.
Novamente aquela palavra fuga se escancarava para ele da boca de Almofadinhas; parecendo uma promessa, uma promessa de liberdade aos dois...
Entretanto, Remo jamais seria livre, nunca.
— Por que você está chorando?
Sirius não conseguia compreender entender e, naquele momento, foi desarmado de toda sua malícia e sensualidade juvenis.
O lobo permaneceu mudo, em sua solidão taciturna de monólogos psicológicos que ecoavam e ecoavam, todavia dificilmente se materializavam em forma de palavras, permanecendo assim, abstratos e perdidos, sentimentalmente, perdidos.
— Aluado — disse Sirius, mas a voz era inaudível e por mais que ele gritasse no seu tímpano lupino, não seria ouvido.
Beijou-o.
Romanticamente — beijou-o.
E toda aquela latência viril e corajosa, toda aquela ardência dilatante e poderosa que existia no cão pareceu ter sido sugada pelo lobo, tomando-o, inflando-o, inflamando-o com toda aquela vermelhidão passional...
*Tradução do título do capítulo: "A Paixão é Vermelha"