Autor: Hello, people ^__~ Essa fic é a minha resposta ao tema “Inveja” do Concurso Queen of Hearts 2009! Como diria a Mandy, porque yaoi/Yuri PODE 8D
Agradecimentos especiais à Joy, minha beta-reader! Espero que gostem.
Capítulo 1
E então, estava na frente dele. Chegara cedo apenas para isso. As frestas de metal um tanto enferrujado encaravam-na como olhos ameaçadores, o silêncio era destruído pelo leve ranger de dilatação da superfície metálica devido ao calor do amanhecer. Seus ouvidos estavam sensíveis a tal percepção.
Estava amedrontada. O pequeno pedaço de papel tremia nos seus dedos e uma gota de suor escorria pela face. Enxugou-a e continuou a olhar para o armário incessantemente. Se tomasse o rumo que queria, não poderia mais voltar.
Olhava para os dois lados. Nenhum aluno. Ainda bem.
E quanto tempo havia desperdiçado refletindo sobre o assunto e hesitando pôr tudo em prática, e quando finalmente consegue escrever no papel em palavras trêmulas...
O armário estava nitidamente mais brilhoso e bem-cuidado do que os do lado. Ela certamente não se contivera e limpou-a como se não fosse um patrimônio escolar, mas sim um pertence seu.
“Ela é tão cuidadosa, tão delicada...” Pensou consigo, colocando uma pequena mecha escura atrás da orelha.
Mas não podia demorar-se mais. Inspirou fundo e enfiou o papel por entre uma das frestas. A porta do pequeno armário apresentava-se fuziladora, por isso decidiu imediatamente dar as costas a ele e deixar o local o mais rápido possível. Uns poucos alunos apareciam e ela não queria ser achada por aqueles lados. O seu próprio armário se localizava em outro corredor.
Mais tarde, o seu papel seria lido e ela saberia quem o escreveu. A letra, o papel, pela maneira de escrever, tudo contido no pequeno bilhetinho era uma pista para que ela descobrisse quem o escreveu.
“Tão delicada...” Repetia consigo mesma. “Parece tanto uma história de romance que eu já...” Seu pensamento foi interrompido por um piso um pouco mais levantado, o suficiente para fazê-la tropeçar.
Endireitou-se e seguiu o rumo. Olhou para trás e certificou-se se alguém via. Ninguém, como desejava. Arrumou mais uma vez o cabelo, puxando-o para trás e bateu de leve na meia branca, para tirar um pouco de pó.
Agora ela não podia fazer mais nada. O papelzinho azul havia selado o seu destino.
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Encostada com a cabeça na carteira, refletia se aquilo tinha sido uma boa idéia. Tudo parecia ter sido tão impulsivo, poderia esperar mais alguns dias, talvez semanas e...
“Não, eu não poderia”. Concluiu. E estava certa. Há muito tempo estava com a ideia na cabeça e pensara muito sobre como realizá-la, a melhor maneira, menos constrangedora e eficiente, de preferência.
Afinal, ela era uma escritora, não um gênio.
Ao seu lado, como sempre, ela estava sentada, arrumando seus materiais e se preparando para mais um dia de aula. Sempre fora assim, aplicada, comportada. Tão diferente de Aya.
- Aya-chan? – Fitou-a com seus olhos castanhos, preocupada. Alguns fios castanho-claros se desalinharam.
- Ah, oi? – Estava distraída. Olhava-a, mas seus pensamentos estavam bem mais longe.
- Tudo bem, Aya? – Levantou-se de sua carteira e se ajoelhou ao lado da amiga – Você não abusou de novo na frente do computador, né? – Encarava-a, como se impusesse alguma moral ou intimidação – mas era fofa demais para tal – Né? – Repetiu.
- Ah – e forçou uma risada – Pois é... a minha editora... cobrou urgentemente os últimos capítulos daquela novela de que eu lhe falei, sabe? Então... ela pediu com extrema urgência e eu não tive como recusar...
- Aya! – repreendeu – quantas vezes eu disse para não fazer isso! – Com isso, pegou com as duas mãos a mão direita da moça de cabelo curto – Isso faz tanto mal pra sua saúde...
- Desculpa, Rika... – olhava-a e não tinha como não ter remorso.
Remorso por estar mentindo.
- Prometa-me que você nunca mais fará isso!
- Ok, ok... eu prometo – fez uma pose como se realmente esse fosse o problema e estivesse dando de ombros.
- Isso! – entrelaçou os dedos e soltou um sorriso!
- ARRRRG, MACACA TEIMOSA! – Quem gritava era Tsubaki, brigando como de costume com Tsubasa, que certamente teria feito alguma de suas travessuras.
- ME SOLTA, ME SOLTA, ME SOLTA! AAAAAHHHH – A loira berrava como se não estivesse em uma sala de aula cheia de alunos.
As duas amigas observavam a cena. Aya não conseguia segurar as gargalhadas enquanto Rika, com seu jeito gentil, tentava apartá-las. Apesar de Tsubaki ser a maior entre as quatro, Tsubasa era a pessoa que dava mais dificuldade de segurar e separar de uma briga. Ela vestia com perfeição o estereótipo de “baixinha invocada”.
- Tsubasa-chan, Tsubaki-chan, parem, por favor...
- FALA PRA ESSA MACACA QUE... – A atacante de vôlei com seus berros era a que mais chamava a atenção na sala.
- NÃO, NÃO E NÃO! EU JÁ DISSE QUE... – A loira falava sem dar trégua para a outra continuar a frase, fazendo com que a discussão se transformasse num verdadeiro pandemônio.
A briga só foi contida com a chegada do professor, que resolveu a questão com a simplicidade com que apenas um docente faria:
- A lapiseira será confiscada – pegou o objeto cilíndrico da mão da garota alta e guardou no bolso do paletó.
- Mas professor...
- Não, Tsubaki. Não importa de quem seja. Vou deixá-la comigo, para a harmonia da sala – Mostrou a sala e os alunos com expressões assustadas, abismados com a briga épica devido a uma lapiseira.
As duas sentaram-se em seus lugares, inconformadas com a decisão e como a outra fora inconveniente.
- Olha, Tsubasa, se eu não gostasse de meninas bonitas...
- Perdi uma lapiseira por sua causa...
Mesmo assim, a aula conseguiu ser realizada. Aya ainda ria um pouco e não se incomodava com os olhares fuziladores de ambas as prejudicadas. Rika olhava-as, com um pouco de dó por terem a atenção chamada no meio da sala. Mas olhava principalmente para a melhor amiga. Estava chateada com ela.
Porque ela havia mentindo.
A moça de cabelos curtos achava que se saíra livre com a leve mentira, mas Rika sabia de cada detalhe nas reações da Aya. Isso era motivo de orgulho para ela.
Conhecia-a desde o maternal e acompanhara cada fase ou acontecimento da vida dela e já observara várias vezes quando a amiga tinha problemas com os prazos, ou quando precisava varar a noite ou até mesmo noites. Aquela não era a sua reação.
Tudo ficava evidente com as risadas que dera com a briga. Se tivesse varado a noite, ela estaria cansada e dormindo naquele momento. Ela estava era estressada. Aquilo apenas tinha sido um momento de descontração a que deu-se ao luxo, mas o que havia com ela? Problemas com roteiro, algum escrito foi recusado?
“E por que não contou para mim?” Pensava. “Se fosse só isso, ela certamente contaria para mim... sempre fez isso. Por que não faria agora?” E estava certa. Desde quando ingressara na carreira de escritora, a moça de longos cabelos castanhos foi sua confidente.
Olhou-a de esguelha e ela copiava a matéria, mas a sua mente estava longe, muito longe. Ela copiava da lousa, mas o olhar estava vago, distante. Tentou não se distrair enquanto o professor explicava, mas no final perdeu o rumo e decidiu voltar a pensar na amiga escritora.
O sinal tocou, anunciando o intervalo. Todos se levantaram e Rika pegou Aya pelo braço e saíram juntas. Tsubasa e Tsubaki logo atrás.
- Vamos até a sala da Yukinon, né? – Tsubaki pergunta.
- É, ela falou que precisava acertar alguns papeis do conselho estudantil e não podia sair da sala. Vamos lá vê-la, então. – Rika disse.
No trajeto, conversaram naturalmente, inclusive Aya, o que estranhou Rika.
“Se ela tivesse virado a noite, eu duvido que estaria em tal ânimo” Concluiu. “Mas algo aconteceu...”
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Mais um dia havia se passado e o sol partia, tingindo o céu de laranja no entardecer. Todos já haviam partido, apenas Rika que se demorara e fora deixada para trás.
Estranhou principalmente Aya não tê-la esperado.
“Faz sentido”. Pensava “Talvez essa pressa esteja relacionada com aquele estado de manhã cedo. Ela poderia me dizer alguma coisa...” Se enraivecia, um típico incômodo porque a melhor amiga não havia compartilhado um segredo.
Chegando ao armário, observou a porta metálica com certo desgosto.
“Ela não está tão limpa...” Pensou ao olhar uma pequena ferrugem que aparecia na borda. “E eu não tenho nada comigo aqui para tentar dar um jeito nisso...” O seu perfeccionismo ia longe. Os seus bordados e tricôs eram de um capricho inumano, e mesmo assim notava um ou outro ponto despercebido que julgava não estar bom.
Enfiou a chave na fechadura e ao abrir a porta, um pequeno pedaço de papel caiu lentamente até o chão. Ela abaixou-se e o recolheu. Abriu a pequena dobradura e pôs-se a ler:
“Encontre-me na praça após as aulas. Estarei te esperando perto da quadra.”
Observou todo o papel. Fazia parte de um simples bloco de anotações e era azul. A tinta usada era preta, a caneta provavelmente de ponta fina e a letra era muito bonita.
“Aya gosta muito de canetas finas” Lembrou Rika. E acrescentou que letras bonitas combinavam com pessoas amantes de letras, principalmente escritoras. “Mas por que ela não me disse nada na aula, quando pode?”
E os detalhes continuaram. Ela observou que o papel era simples e não era rosa, como era esperado da escritora. Ela não gostava de desenhos coloridos em folhas, dizia que poluía o papel e não a deixava focar-se no que escrevia.
Pegou o pequeno pedaço, dobrou-o delicadamente e guardou-o na mochila. Arrumou os materiais adequadamente e partiu rumo à praça. Rika estava preocupada.
“O que a Aya gostaria comigo? Queria que ela me tivesse dito logo de manhã...” A praça não era muito longe da escola. O verão fazia com que o sol ainda mostrasse-se no céu. Se fosse inverno, certamente Rika não teria o caminho iluminado pelos raios solares.
Cogitara arrumar-se em casa antes de ir à praça, mas logo mudou de idéia. “Aya-chan é tão impaciente” Lembrou “Não gostaria de vê-la mal humorada por minha causa... E não tem problema, a bolsa está leve”! Sorriu e continuou o caminho.
A praça não era tão grande e, mesmo não a conhecendo direito, foi fácil encontrar a quadra de que Aya falava. Observava as flores enquanto caminhava. Elas combinavam-se em mil cores e odores, formando um cenário raro de tanta beleza. Borboletas e abelhas voavam de uma a outra flor, coletando e espalhando néctar pelo caminho, semeando ainda mais plantas.
Via Aya de longe, e ela segurava algo chamativo nas mãos, mas não conseguia distinguir. Não se conteve e gritou quando estava mais próxima:
- Aya-chaaaaaaan – acenou com o braço erguido.
Ela virou-se e escondeu a coisa desconhecida nas suas costas.
- Oi, Rikaa! – acenou também, mais desajeitada.
Rika desceu os degraus para a quadra um pouco acelerada e se aproximou de Aya. O objeto estava bem escondido, mas ela percebia alguma coisa dele. Barulho de plástico sendo apertado pela mão esquerda, via algumas coisas vermelhas sugestivas...
- Então, o que queria falar comigo, Aya-chan? – Perguntou com um sorriso estampado no rosto.
Após a pergunta, seguiu-se um rápido e inesperado silêncio, que foi quebrado com uma pergunta um tanto inusitada:
- Rika... há quanto tempo a gente se conhece?
- Hã? Aya... – Não conseguiu deixar de estranhar a pergunta.
- Sim, acho... que desde o maternal, né? – Encarava-a séria, por mais que a pergunta soasse idiota.
- Sim, desde o maternal. Mas... o que você quer dizer com isso? – Terminou a pergunta apenas em seu pensamento.
A de cabelos compridos olhava a amiga um pouco confusa pela pergunta. Por que ela perguntou se ela mesma sabia a resposta? Para Rika, isso não fazia sentido...
Aya ainda olhava-a, escondendo o conteúdo que segurava com a mão esquerda. Algumas mechas de seus cabelos curtos e negros se desalinhavam na face, mas ela não se dava ao trabalho de arrumá-las. Uma leve brisa quente passou por elas, mexendo-lhes cabelos e saias.
- Faz... uns três ou quatro anos que trabalho como escritora, não? – Continuou com a série de perguntas incoerentes.
- Sim! Eu me lembro de quando você começou. Você estava tão nervosa por causa de sua primeira novela! Ela recebeu algumas críticas ruins, mas em geral, foi bem avaliada.
- É – riu um pouco – E quando eu tive a minha primeira cobrança, lembra como eu reagi?
- Sim, claro! Não tinha quem pudesse com você naqueles tempos! Lembro-me que a Tsubaki até evitava passar perto de você, por causa das crises psicóticas.
- É, é verdade! – E as duas puseram-se a rir – Então – continuou – o que eu queria dizer é que... não sou tão famosa, mas escrevo a um certo tempo... eu tenho uma quantidade de dinheiro legal. Nada grandiosa, mas o suficiente.
Rika ficou ainda mais confusa. Perguntava-se aonde ela queria chegar com essa afirmação. Aya olhava-a incessantemente, esperando alguma reação.
“Mas o que significa tudo isso...? Não faz sentido, a Aya não é o tipo de pessoa que se exibiria e se mostraria superior, principalmente para mim... acho”. Nesse momento, a moça delicada já não tinha muita certeza do que pensar.
- Hã... – ela nada mais conseguiu dizer.
- É, não faz muito sentido o que eu estou dizendo mesmo. Ai, cara, eu não sei como falar... – Levou a mão direita à face, apertando-a e a mão direita abaixou-se um pouco, deixando mais a mostra o que escondia.
De fato, a coisa era coberta por uma camada de papel plástico e via duas pétalas, uma vermelha e outra amarela, logo abaixo da onde a escritora estaria. “Um buquê” concluiu “mas para quê?”
- Aya-chan...
- Ai, Rika, desculpa... – e deu um passo para trás.
- Aya, o que é tudo isso? – e ela fez o inverso, deu um passo para frente, aproximando-se. Olhava-a confusa. A amiga se mostrava muito perturbada e um tanto quanto cansada.
Seguiu um momento de silêncio, que foi quebrado com a repetição de Rika
- Aya, diga... – E aproximou-se mais, agora a tocar a face da amiga com as pontas do dedo, como para acalmar – Você está muito... estranha – Não sabia se era certo dizer isso, mas era o que pensava.
A moça de cabelos curtos voltou o seu rosto para a amiga de infância lentamente. Os olhos brilhavam com as lágrimas que brotaram e as maçãs do rosto estavam mais avermelhadas do que o normal.
Rika percebeu que o nariz de Aya escorria um pouco e não tardou em pegar um lenço de papel na bolsa e limpá-lo:
- Aya-chan, você definitivamente não está bem... por favor, me conte o que houve! – Pediu com a voz exaltada – Eu nunca vou descobrir se você continuar assim!
A amiga, entretanto, continuava apenas a encará-la, como se tivesse medo de revelar a verdade e receber como resposta uma reação negativa.
De fato, tinha esse medo...
- É – balbuciava – Rika, você gosta do meu irmão?
- Como? – começava a corar.
- Eu digo... – continuou – de amar, namorar...
- Ai, Aya... – ruborizou-se por completo – S-si... – não conseguia completar a palavra, por mais que estivesse confessando para a amiga em vez da própria pessoa.
- Sim, né?
- É. – abaixou o rosto.
- Entendo...
Ao olhá-la novamente, Rika percebe que se o semblante da amiga já não era dos melhores, tornara-se depois da confissão o pior de todos. Olhos vermelhos, lágrimas escorriam pela face como cachoeiras, o nariz não parava de escorrer e muitas vezes ouvia-se ela expirando fundo. As pernas tremiam de leve e os braços pareciam tão leves que seriam levados pelas brisas que passavam pela praça.
- Aya?
- S-sim? – A sua voz misturava-se com os soluços do choro.
- O que é tudo isso? – Aproximou-se, agora segurando o queixo dela com a mão direita, encarando-a como se quisesse ver dentro de sua mente. Ela começava a sentir melancolia por ver a outra no estado no qual se encontrava.
Os rostos estavam próximos e uma podia sentir a respiração da outra: A da Rika um pouco alterada por causa da amiga, a da Aya extremamente pesada e chiada. Os lábios quase se encostavam. A de cabelo curto lambeu de leve o lábio superior.
E eles encostaram-se quando Aya a beijou.